Desmonte no Samu de BH
A crise enfrentada pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Belo Horizonte tomou uma nova proporção no dia 22 de abril, quando uma grande quantidade de trabalhadores se mobilizou pelas ruas do centro da cidade, culminando em uma lotada audiência pública na Câmara Municipal que denunciou o que muitos chamam de “desmonte” da saúde.
Impactos da Redução de Técnicos
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) anunciou que aproximadamente 25% dos técnicos de enfermagem que atuam nas Unidades de Suporte Básico (USBs) deixarão seus postos em 1º de maio, coincidindo com o término de contratos temporários. Esse corte é visto como uma grave redução na capacidade de atendimento e preocupa trabalhadores e usuários do sistema.
Durante a audiência da Comissão de Saúde e Saneamento, trabalhadores, políticos e representantes do Executivo debateram as consequências dessa política de cortes, que resulta em uma diminuição superior a R$ 50 milhões por mês na área da saúde. As críticas foram direcionadas à necessidade de um ajuste fiscal que, segundo a gestão pública, é imprescindível.

Protestos e Mobilizações dos Servidores
Antes da audiência, os servidores do Samu realizaram um protesto em frente à prefeitura, expressando suas preocupações com o futuro do atendimento. Reivindicando melhorias e presença direta do prefeito Álvaro Damião (União Brasil) para discussões, os trabalhadores gritaram slogans como “Salve o Samu!” e “Cortes na saúde custam vidas!”. A caminhada continuou até a câmara municipal, onde o debate se ampliou, trazendo à tona a perspectiva de cortes ainda mais profundos no orçamento da saúde municipal.
Riscos à Saúde da População
O técnico de enfermagem Joel Campos alertou diretamente sobre os perigos trazidos por essa redução: “A diminuição do número de técnicos de enfermagem em ambulâncias significa um risco iminente à vida das pessoas”. Esse sentimento de insegurança é compartilhado por muitos profissionais, que temem a deterioração da qualidade do atendimento e a segurança dos pacientes.
Justificativas da Prefeitura e Críticas
O subsecretário de Planejamento Estratégico em Saúde, Marcelo Alves Mourão, afirmou que os cortes são uma continuidade de diretrizes de gestão anteriores e, portanto, não originou da atual administração. A subsecretária de Atenção à Saúde, Raquel Felisardo Rosa, explicou que a mudança se dá em razão do término de contratos temporários iniciados durante a pandemia e que as equipes serão reorganizadas para manter a operação.
A Visão dos Profissionais de Saúde
Aline Lara, coordenadora do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel), expressou preocupação com as implicações imediatas desses cortes. Ela destacou que a retirada de um técnico de enfermagem por ambulância leva a uma sobrecarga de trabalho, afetando diretamente a eficiência e qualidade do atendimento. “Cada segundo pode significar a diferença entre a vida e a morte”, afirmou.
Corte de Orçamento e Suas Consequências
Os cortes não afetam apenas o Samu, mas têm o potencial de impactar toda a rede de saúde municipal. A retirada de profissionais pode resultar em desassistência em serviços essenciais, como transporte sanitário e unidades básicas de saúde. Hilda Alexandrino, presidenta do Conselho Municipal de Saúde, também criticou a falta de uma visão conjunta por parte da gestão municipal e enfatizou que as decisões parecem estar distantes do feedback da comunidade.
Efeito em Cadeia no Sistema de Saúde
Este cenário preocupa também entidades médicas. O Sindicato dos Médicos (Sinmed) e o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) expressaram em nota conjunta sua inquietação quanto ao risco de colapso do sistema de saúde, especialmente em momentos de crescente demanda por atendimentos. O enfraquecimento do atendimento pré-hospitalar pode agravar a situação, sobrecarregando Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e dificultando o acesso à saúde da população.
Reações na Câmara Municipal
O vereador Dr. Bruno Pedralva (PT), que solicitou a audiência, enfatizou que a responsabilidade pelo desequilíbrio fiscal não é da saúde, mas sim de políticas que priorizam subsídios a empresas privadas, enquanto a saúde pública enfrenta cortes. Ele defendeu a necessidade de uma repensar a alocação de recursos públicos de maneira mais justa e eficaz.
A Crise Sanitária e Seus Desdobramentos
A pandemia e o estado de emergência declarado pela prefeitura pedem um cuidado especial com a saúde pública. Hilda Alexandrino mencionou que retirar contratos essenciais em um momento crítico é um grave erro e acentuou que os profissionais de saúde são indispensáveis em um cenário de emergência.
Caminhos para a Mobilização e Solução
Em resposta a essa situação, o Sindibel anunciou que continuará as mobilizações e está avaliando ações judiciais para contestar os cortes. A estratégia inclui diálogo com a prefeitura, pedidos de intervenção do Ministério Público e ações judiciais no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, com o intuito de garantir a manutenção dos profissionais críticos que atuam no SUS.
Os trabalhadores da saúde, como ressaltou a enfermeira Érika Santos durante a audiência, estão alertas para a situação: “Se 70% do atendimento é feito pelas USBs, que lógica existe em cortar efetivo? É a população que arcará com as consequências”.

